Falência do Hospital XV revela dívida superior a R$ 300 milhões e amplia questionamentos sobre contrato com Prefeitura de Curitiba
Grupo hospitalar teve falência decretada após descumprimento do plano de recuperação judicial; dívida é 13 vezes maior do que a informada no início do processo em 2019.
Dívida do Hospital XV cresce mais de 13 vezes desde recuperação judicial
A falência do Grupo Hospital XV, decretada pela Justiça do Paraná em março de 2026, revelou um crescimento expressivo das dívidas acumuladas pela instituição ao longo dos últimos anos. Segundo a relação oficial de credores publicada pelo Tribunal de Justiça do Paraná, o passivo total do grupo hospitalar chegou a R$ 302,9 milhões, valor cerca de 13 vezes superior aos R$ 23 milhões apresentados quando o pedido de recuperação judicial foi protocolado, em agosto de 2019.
O edital de falência foi publicado oficialmente no final de abril e trouxe detalhes sobre os débitos acumulados pelas empresas Hospital XV Ltda. e Instituto de Medicina e Cirurgia do Paraná Ltda., reconhecidas pela Justiça como integrantes de um mesmo grupo econômico. O processo tramita na 27ª Vara de Falências e Recuperação Judicial de Curitiba.
A maior parte da dívida está concentrada em débitos tributários. Somente a União Federal e a Prefeitura de Curitiba somam aproximadamente R$ 266 milhões em créditos tributários, o equivalente a quase 88% de todo o passivo concursal. Desse total, R$ 171,2 milhões correspondem a dívidas com a União, enquanto outros R$ 95,2 milhões são devidos ao município de Curitiba.
Crise financeira levou recuperação judicial à falência
O Grupo Hospital XV ingressou com o pedido de recuperação judicial em 2019, alegando dificuldades financeiras para manter suas atividades. O plano de recuperação foi aprovado pelos credores em 2021 e vinha sendo executado até meados de 2025, quando a situação financeira voltou a se agravar.
Segundo documentos do processo, o principal fator que levou ao colapso financeiro foi o crescimento das chamadas dívidas extraconcursais, especialmente os débitos fiscais acumulados ao longo dos últimos anos. As próprias empresas reconheceram, em petições apresentadas à Justiça, que não conseguiam mais cumprir o plano de recuperação judicial aprovado anteriormente.
Diante desse cenário, o próprio grupo empresarial solicitou a conversão da recuperação judicial em falência. A administradora judicial e o Ministério Público concordaram com o pedido, que acabou sendo aceito pela juíza Luciane Pereira Ramos em decisão assinada no dia 17 de março de 2026.
Na sentença, a magistrada destacou que o descumprimento do plano de recuperação tornou inviável a continuidade do processo de recuperação judicial, enquadrando o caso nas hipóteses previstas pela Lei de Recuperação e Falências.
Mais de 900 credores aparecem na lista oficial
O edital divulgado pela Justiça aponta a existência de 906 credores vinculados ao processo de falência do Grupo Hospital XV. Além das dívidas tributárias milionárias, o hospital acumula débitos trabalhistas, fornecedores e obrigações consideradas extraconcursais.
Os créditos trabalhistas somam aproximadamente R$ 24 milhões e envolvem cerca de 450 trabalhadores. Já os fornecedores e credores quirografários representam cerca de R$ 5 milhões. Outros R$ 6,1 milhões estão relacionados a fornecedores extraconcursais, enquanto aproximadamente R$ 1,4 milhão correspondem a trabalhadores extraconcursais.
Com a publicação do edital de falência, os credores passaram a ter prazo de 15 dias para apresentar habilitações ou divergências diretamente à administradora judicial responsável pelo caso.
Hospital continuará funcionando provisoriamente
Apesar da decretação da falência, a Justiça autorizou a continuidade temporária das atividades hospitalares do Grupo Hospital XV. A decisão foi fundamentada na chamada função social do hospital e no risco de desassistência à população caso os serviços fossem interrompidos imediatamente.
Um dos fatores considerados pela magistrada foi o contrato firmado entre o hospital e a Prefeitura de Curitiba em dezembro de 2025 para prestação de serviços de traumato-ortopedia ao Sistema Único de Saúde (SUS). O acordo ampliou a oferta de leitos e atendimentos de urgência e trauma na rede municipal.
Segundo informações divulgadas, a capacidade contratada prevê atendimento de aproximadamente 1.800 pacientes por mês. A gestão do hospital seguirá provisoriamente sob responsabilidade do atual administrador, supervisionado pela administradora judicial nomeada pela Justiça.
Contrato com Prefeitura gera questionamentos na Câmara Municipal
O contrato firmado entre a Prefeitura de Curitiba e o Hospital XV também passou a ser alvo de questionamentos políticos e administrativos. A vereadora Giorgia Prates protocolou requerimento na Câmara Municipal solicitando acesso integral ao processo administrativo que originou a contratação.
Entre os documentos solicitados estão pareceres técnicos, estudos de demanda, relatórios de visitas técnicas e a íntegra do contrato firmado pela Secretaria Municipal da Saúde. Segundo o sistema da Câmara Municipal, o pedido ainda não havia sido respondido pelo Executivo até o início de maio.
A parlamentar questiona os critérios adotados para a contratação do hospital, especialmente considerando a grave situação financeira do grupo e o fato de o processo de falência já estar em andamento quando o acordo foi firmado.
Outro ponto levantado envolve a utilização do modelo de credenciamento previsto na nova Lei de Licitações, além da justificativa para contratação de uma entidade ligada ao hospital em vez da realização de processo licitatório competitivo.
Falência mantém hospital sob monitoramento judicial
Com a continuidade provisória das atividades autorizada pela Justiça, o Hospital XV seguirá operando enquanto o processo de falência avança. No entanto, qualquer movimentação patrimonial relevante dependerá de autorização judicial e acompanhamento da administradora responsável pela massa falida.
As investigações e análises financeiras devem prosseguir nos próximos meses, enquanto credores, trabalhadores e órgãos públicos acompanham os desdobramentos de um dos maiores processos de falência envolvendo a área da saúde privada no Paraná.
Fonte: Plural / Tribunal de Justiça do Paraná
Fonte: Divulgação/Hospital XV