Ceitec muda foco para semicondutores de carbeto de silício diante da complexidade na produção de chips de silício
A fabricação de chips no Brasil enfrenta obstáculos históricos, levando a Ceitec a investir em semicondutores de carbeto de silício para setores emergentes.
Brasil enfrenta obstáculos na fabricação de chips desde 2008
A fabricação de chips no Brasil nunca se concretizou como desejado desde a criação da estatal Ceitec em 2008. A empresa, sediada em Porto Alegre, não conseguiu avançar na produção de semicondutores de silício, concentrando-se apenas no design e back-end da cadeia produtiva. Augusto Gadelha, presidente da Ceitec, destaca que investir em fabricação de chips de silício exigiria um aporte bilionário que o país não dispõe, levando a estatal a migrar para a produção de semicondutores de carbeto de silício para atender setores como veículos elétricos e energia fotovoltaica.
Desafios financeiros e tecnológicos da fabricação de chips de silício no Brasil
Produzir semicondutores de silício no Brasil requereria investimentos na ordem de US$ 2 bilhões, valor considerado inviável para o cenário atual. O país permanece no design, capaz de desenvolver projetos de chips, e no back-end, que engloba encapsulamento e testagem, especialmente em memórias para celulares e computadores, segmento onde tem participação significativa. A ausência da fase de fabricação de chips impede o Brasil de competir tecnologicamente com países que dominam a front-end, como Taiwan, Coreia do Sul e China.
Ceitec aposta em semicondutores de carbeto de silício para mercado emergente
A Ceitec interrompeu a tentativa de fabricar chips de silício e iniciou investimentos em tecnologia de carbeto de silício, uma cerâmica sintética que oferece resistência superior a altas temperaturas e eficiência energética. Esse tipo de semicondutor é essencial para a transição energética e emergentes setores automotivo e de energia renovável. Com aporte de R$ 220 milhões do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, a Ceitec planeja iniciar a fabricação de semicondutores de potência no segundo semestre de 2026.
Cenário global e comparação de incentivos governamentais para semicondutores
Enquanto o Brasil enfrenta restrições orçamentárias, outros países aplicam enormes recursos para desenvolver indústria de chips. Exemplos recentes incluem o investimento de US$ 12 bilhões da Tata Electronics na Índia e os US$ 6,6 bilhões em subsídios do governo americano para a TSMC no Arizona. Programas como o Chips Act dos Estados Unidos e o European Chip Act evidenciam o papel estratégico da indústria. No Brasil, o programa BrasilSemicon prevê incentivos anuais de R$ 7 bilhões para impulsionar design e back-end de semicondutores, sinalizando esforço para ampliar a cadeia produtiva nacional.
Potencial brasileiro no design e encapsulamento de chips
O Brasil detém expertise relevante em design de semicondutores, com oito empresas especializadas e profissionais altamente qualificados formados em universidades como a UFRGS. No back-end, nove empresas realizam encapsulamento e testagem, especialmente em memórias para smartphones, abastecendo cerca de 35% do mercado nacional. Há um consenso sobre a necessidade de reforçar a formação técnica e pesquisa para reter talentos e estimular a criação de startups, ampliando a competitividade do setor no país.
Necessidade de políticas públicas para fortalecer a cadeia nacional de semicondutores
Especialistas e empresários defendem que o Brasil precisa ampliar investimentos e criar políticas públicas que promovam a indústria de semicondutores. Incentivos fiscais, financiamento e formação de mão de obra especializada são apontados como essenciais para evitar evasão de talentos e atrair investimentos. A experiência internacional demonstra que o desenvolvimento sustentável desse setor depende de apoio maciço do Estado, que ainda está aquém no país. A aposta em tecnologia de carbeto de silício representa um caminho estratégico diante da complexidade e custo da fabricação tradicional de chips.
Fonte: www1.folha.uol.com.br