Autoridades federais já tinham conhecimento dos riscos muito elevados de deslizamentos e enchentes em Juiz de Fora (MG), inclusive nas áreas que registraram mortes após o temporal desta semana. Documentos do Cemaden mostram que o município estava entre os mais vulneráveis do país.
Com 56 mortes confirmadas e desaparecidos, a tragédia expõe falhas na prevenção, entraves na liberação de recursos e a dificuldade do Brasil em sair da lógica da gestão do desastre para a gestão do risco.
A cidade de Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, foi atingida por um forte temporal entre a noite de segunda-feira (23/2) e a madrugada de terça-feira (24/2), deixando 56 mortos confirmados até a tarde de quinta-feira (26/2) e ao menos cinco pessoas desaparecidas. A cerca de 100 quilômetros dali, no município de Ubá, outras seis mortes foram registradas, segundo dados do governo de Minas Gerais.
Documentos produzidos pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) mostram que as autoridades já tinham conhecimento dos riscos elevados de tragédia em Juiz de Fora, inclusive em áreas específicas onde ocorreram deslizamentos.
Um levantamento realizado pelo Cemaden em 2023 identificou 1.942 municípios brasileiros com pessoas vivendo em áreas de risco para deslizamentos, enxurradas e inundações. Ao todo, 8,9 milhões de brasileiros, cerca de 6% da população, vivem nessas condições.
Entre todas as cidades listadas, Juiz de Fora aparece na 9ª posição nacional em número absoluto de moradores vivendo em áreas vulneráveis, com cerca de 128.946 pessoas. Todas as cidades acima no ranking são capitais ou fazem parte de regiões metropolitanas, o que coloca Juiz de Fora como a situação mais crítica do interior do país.
Ubá, também atingida pelas chuvas, tinha 7,4 mil moradores vivendo em regiões classificadas como vulneráveis.
Volume extremo de chuva e solo já saturado agravaram desastre
Segundo o Laboratório de Climatologia e Análise Ambiental da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), entre 17h do dia 23 e 5h do dia 24 choveu 220 milímetros na cidade. Para efeito de comparação, a média histórica de todo o mês de fevereiro é de 170 milímetros.
O acumulado do mês já havia chegado a 589 milímetros, deixando o solo saturado. De acordo com a coordenadora do laboratório, professora Cássia Ferreira, o ambiente já estava bastante instável antes mesmo do novo temporal. Com a precipitação adicional, o solo não suportou.
Juiz de Fora também está entre as dez cidades com maior número de alertas emitidos pelo Cemaden em 2025, ficando atrás apenas de Manaus, São Paulo e Petrópolis. Os alertas mais comuns foram relacionados a inundações e, principalmente, deslizamentos de terra em encostas habitadas.
Os comunicados do Cemaden são enviados diretamente às Defesas Civis municipais para subsidiar decisões na escala local.
Um documento do órgão, datado de 2017, já apontava risco elevado de deslizamentos de rocha na região do Morro do Cristo, próximo ao centro da cidade — área que registrou ocorrências recentes. O relatório indicava 15 imóveis ameaçados diretamente e classificava outras 79 localidades como áreas de alto risco.
Especialistas explicam que Juiz de Fora é particularmente vulnerável por sua configuração geográfica. Localizada no vale do rio Paraibuna e cercada por morros, a cidade concentra população tanto no fundo do vale quanto nas encostas.
A urbanização inicial dos morros ocorreu com maior emprego técnico e moradias estruturadas. No entanto, o avanço urbano levou à ocupação periférica com menor infraestrutura e menor capacidade de investimento em segurança estrutural, especialmente por populações de menor renda.
A retirada da vegetação para construção em encostas também agrava o problema, já que a cobertura vegetal ajuda a estabilizar o solo e a distribuir melhor a água da chuva.
Recursos do PAC, queda de gastos e debate sobre prevenção climática
A lista de municípios vulneráveis elaborada pelo Cemaden serviu de base para ações prioritárias do governo federal dentro do Novo PAC, permitindo que Estados e municípios apresentem projetos para receber investimentos em obras de mitigação e prevenção.
Segundo documentos da Casa Civil, há quatro projetos em andamento para Juiz de Fora dentro do PAC Seleções voltados à prevenção de desastres, sendo três relacionados à contenção de encostas.
Em 2012, a cidade recebeu R$ 40 milhões para obras em encostas. Atualmente, há R$ 18 milhões previstos para conclusão de intervenções. Em 2023, a prefeitura obteve autorização para mais R$ 21 milhões destinados a obras em três bairros, mas a verba ainda não foi liberada devido a pendências documentais.
Em dezembro de 2025, um novo projeto no valor de R$ 8,5 milhões foi aprovado no PAC para obras de encostas.
No âmbito estadual, reportagem do jornal O Globo, com base em dados do Portal da Transparência, indicou que as despesas do governo de Minas Gerais no programa de combate aos impactos das chuvas caíram de R$ 135 milhões para R$ 6 milhões entre 2023 e 2025. O governo estadual afirmou ter investido mais de R$ 170 milhões em prevenção e resposta a desastres, mas não detalhou a redução apontada nos dados.
O Ministério do Meio Ambiente vem defendendo, desde a tragédia de São Sebastião (SP) em 2023 e após as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024, a criação de um plano nacional de prevenção a desastres climáticos. A proposta busca mudar a lógica da gestão do desastre para a gestão do risco, antecipando medidas em municípios mais suscetíveis.
Especialistas defendem maior preparo das Defesas Civis municipais, criação de sirenes, rotas de fuga estruturadas, educação ambiental contínua e até mudanças jurídicas que permitam retirar moradores de áreas de risco em situações de emergência.
A última chuva de magnitude semelhante registrada em Juiz de Fora ocorreu em janeiro de 1985, quando quase 600 milímetros foram acumulados em 20 dias. Quarenta e um anos depois, a cidade volta a viver cenas de devastação.
Projeções climáticas indicam que o Sudeste brasileiro deve enfrentar chuvas mais concentradas e intensas nos próximos anos, reduzindo o intervalo entre eventos extremos e aumentando o desafio de prevenção para os municípios.