Relatório da FAO destaca impactos severos do calor sobre a agricultura, pecuária e florestas brasileiras e alerta para vulnerabilidades ampliadas pelo El Niño
O calor extremo no Brasil entre 2023 e 2024 expôs vulnerabilidades severas na agricultura, pecuária e segurança alimentar diante das mudanças climáticas.
Impactos do calor extremo no Brasil entre 2023 e 2024 sobre a agricultura e segurança alimentar
O calor extremo no Brasil entre 2023 e 2024 representou um desafio sem precedentes para o agronegócio e a segurança alimentar do país. Segundo o relatório da FAO elaborado em conjunto com a OMM, os efeitos do aumento das temperaturas, suscitados pelo padrão climático do El Niño, afetaram simultaneamente diversos setores produtivos, como a agricultura, pecuária, pesca, além de florestas e a saúde humana. O fenômeno demonstrou a complexa vulnerabilidade do sistema agrícola diante de eventos climáticos extremos, que causam perdas significativas na produtividade e ameaçam os meios de subsistência de milhões.
Redução da produtividade nas principais culturas e a influência do estresse térmico
A soja e o milho de primeira safra foram duramente impactados pelas ondas de calor que coincidiram com seus períodos críticos de desenvolvimento. Em grandes regiões produtoras do Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste, as temperaturas máximas diurnas superaram consistentemente 30 °C, limite crítico para a cultura da soja, em mais de 60% dos dias de outubro de 2023 a maio de 2024. Esse estresse térmico causou abortamento de flores, queda de vagens e má formação de grãos, resultando em quedas de produtividade superiores a 20% em estados como São Paulo. As perdas foram amplificadas em áreas de preparo convencional do solo devido à maior perda de umidade e aumento da temperatura do solo. Em contrapartida, práticas como o plantio direto sob palhada de cana-de-açúcar demonstraram um efeito isolante, reduzindo o impacto do calor e preservando a umidade do solo.
Pressões sobre a pecuária e consequências econômicas dos impactos do calor
O setor de pecuária também sofreu com o calor extremo, especialmente suínos e bovinos leiteiros, bastante sensíveis às altas temperaturas. No Centro-Oeste, os suínos enfrentaram estresse térmico severo por longos períodos mensais, com efeitos adversos sobre a ingestão alimentar e ganho de peso. Para os bovinos leiteiros, o impacto foi ainda mais grave, pois o estresse térmico comprometeu a produção de leite, gerando perdas econômicas irreversíveis. Além disso, os efeitos fisiológicos adversos podem persistir por toda a vida dos animais e afetar a qualidade dos descendentes, ampliando o desafio para os produtores e para a indústria.
Incêndios florestais e riscos ampliados para trabalhadores rurais e ecossistemas
A onda de calor de 2023-2024 também desencadeou incêndios florestais catastróficos, em especial no Pantanal e no Centro-Oeste, onde o índice FWI (Fire Weather Index) atingiu níveis anormalmente elevados. Esses incêndios devastaram áreas equivalentes ao território da Itália, causando grave poluição do ar por micropartículas e colocando em risco a saúde e a segurança dos trabalhadores rurais. A maior frequência e intensidade dos incêndios refletem as mudanças climáticas que elevam o risco de eventos extremos e agravam a situação de vulnerabilidade dos ecossistemas brasileiros.
Tendências de aquecimento e perspectivas futuras para a agricultura brasileira
Desde 1979, observa-se aumento na frequência e intensidade de ondas de calor no Brasil, atingindo regiões antes pouco afetadas como Amazônia e Nordeste. O relatório da FAO alerta que, até o final do século, eventos de calor extremo com máximas diárias acima de 40,6 °C deverão tornar-se muito mais comuns. Essa tendência impõe a necessidade urgente de adaptações no setor agrícola, incluindo a adoção de práticas que favoreçam a conservação do solo e da umidade, além do desenvolvimento de cultivares resistentes ao calor e políticas públicas voltadas para a mitigação dos impactos climáticos e a proteção da segurança alimentar nacional.
Fonte: www.infomoney.com.br
Fonte: Christiano Antonucci/Secom-MT