Rússia usa fertilizantes para pressionar por apoio em meio à crise em Ormuz

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Entenda como o Kremlin transforma a oferta de fertilizantes em estratégia geopolítica para aliviar sanções e conquistar aliados

Em meio à crise no Estreito de Ormuz, a Rússia usa seu papel como exportadora de fertilizantes para pressionar por apoio político e flexibilização de sanções.

Rússia usa fertilizantes para pressionar apoio político durante crise em Ormuz

A Rússia usa fertilizantes como instrumento estratégico diante da crise no Estreito de Ormuz, rota que conecta o Golfo Pérsico ao Mar Arábico e por onde passa cerca de um terço do transporte marítimo global desses insumos. O país governado por Vladimir Putin, sendo o maior exportador mundial, tem aproveitado essa posição para pressionar por apoio político e a flexibilização das sanções impostas pelo Ocidente.

O vice-secretário do Conselho de Segurança da Rússia, Alexander Venediktov, declarou que Moscou está pronta para enviar fertilizantes ao Sul Global, contudo, condiciona o envio ao apoio ao desenvolvimento de agrupamentos liderados pela Rússia, como o BRICS, a Organização de Cooperação de Xangai e a Comunidade de Estados Independentes. Essa movimentação visa consolidar influência política e econômica, mostrando que a “diplomacia dos fertilizantes” é uma ferramenta de poder do Kremlin.

Impactos da crise em Ormuz e a importância dos fertilizantes russos para o agronegócio global

O bloqueio em Ormuz afetou significativamente as rotas de exportação de fertilizantes provenientes do Golfo, um dos principais fornecedores mundiais, incluindo Irã, Catar e Arábia Saudita. Isso gerou um aumento dos preços, já que a ureia, fertilizante nitrogenado mais usado globalmente, tem seu custo atrelado ao preço do gás natural, que está em alta devido aos conflitos recentes.

Economias em desenvolvimento, como Brasil e Índia, dependem consideravelmente das importações russas, que passaram a direcionar suas exportações para o Sul Global diante das restrições ocidentais. Em 2025, empresas russas responderam por aproximadamente um quarto dessas importações, ressaltando a relevância da Rússia no abastecimento global de fertilizantes.

Limitações logísticas e operacionais nas exportações russas de fertilizantes

Apesar da iniciativa política, a Rússia enfrenta limitações sérias para aumentar sua produção e exportação de fertilizantes. O oleoduto Togliatti–Odessa, vital para o transporte de amônia, está fora de operação devido a ataques e danos causados pela guerra na Ucrânia. Além disso, frequentes ataques de drones ucranianos atingem as fábricas russas, reduzindo a capacidade produtiva.

Recentemente, o Kremlin impôs restrições internas às exportações para evitar escassez doméstica, o que demonstra que a oferta de fertilizantes ao Sul Global tem capacidade restrita e funciona mais como um instrumento político do que como um fluxo comercial significativo.

A diplomacia dos fertilizantes e suas consequências para sanções e relações internacionais

A estratégia russa não se limita aos países do Sul Global; ela também mira os Estados Unidos e a União Europeia. Em março, os EUA suspenderam sanções contra fabricantes bielorrussos de potássio, numa medida que coincide com o temor global de alta nos preços e crise alimentar. Na União Europeia, a questão ambiental sobre o teor de cádmio nos fertilizantes de origem marroquina reforça o argumento russo para que o bloco flexibilize suas restrições e compre fertilizantes russos com menor teor desse metal.

Essa dinâmica posiciona a Rússia em situação vantajosa para dividir o bloco europeu, especialmente com a França, onde a narrativa dos danos das sanções é forte. Moscou assim fortalece sua narrativa de que a crise alimentar global é resultado da guerra e das sanções lideradas pelos EUA.

Histórico da Rússia ao usar insumos estratégicos como ferramenta política

A chamada “diplomacia dos fertilizantes” do Kremlin segue um padrão já observado durante a pandemia de covid-19, quando a Rússia usou sua vacina Sputnik V para pressionar países do Sul Global a firmarem acordos econômicos e alinhamentos políticos. Apesar de atrasos e questionamentos sobre a eficácia da vacina, Moscou conseguiu algum sucesso diplomático, como na Bolívia, que se absteve de condenar a invasão da Ucrânia.

Essa prática reforça que a oferta desses insumos funciona mais como uma operação de relações públicas e geopolítica do que como um compromisso comercial efetivo, destacando a busca russa por influência e alívio das sanções.

Perspectivas para o futuro da crise em Ormuz e o papel da Rússia na alimentação global

O futuro do Estreito de Ormuz permanece incerto, mas, segundo análises, a diplomacia dos fertilizantes já é um sucesso para o Kremlin, independentemente da duração da crise no estreito. A Rússia consolida sua narrativa de que a guerra liderada pelos EUA está agravando a fome no Sul Global e que a flexibilização das sanções é necessária para evitar uma crise alimentar maior.

Este cenário apresenta desafios significativos para a estabilidade geopolítica global e para as estratégias econômicas dos países dependentes desses insumos, ressaltando a importância do acompanhamento próximo das negociações e movimentações em torno do comércio de fertilizantes.

Fonte: www.infomoney.com.br

Fonte: cnsphoto via REUTERS

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